Noivado nas nuvens

Certamente casar na igreja estava longe de ser um item na minha Bucket List. Para quem gosta de classificações, a justificativa poderia ser que a geração Y está impregnada por amores líquidos, afinal, é aparentemente rápido e fácil descartar coisas e também pessoas. O resultado? Relações frágeis e pouco duradouras. Mas essa justificativa me parece um pouco rasa e incompleta.

Aprofundando um pouco mais esse ponto de reflexão, é fácil perceber o desafio que é ter e manter um relacionamento saudável. Muito além de aprender a lidar com as manias e imperfeições do outro, você se depara constantemente com aquele seu lado que não é tão bonito e que seu orgulho teima em não lhe permitir enxergar. É através do outro que nós somos. O relacionamento com intimidade ajuda a nos mantermos honestos pois um pode passar a ser ao outro uma espécie de espelho.

Encarar a jornada de uma vida a dois talvez estivesse longe de constar nas minhas prioridades porque por muito tempo houve um apego à crença de que viver as dores e delícias de uma vida com deficiência aparente era uma missão exclusivamente minha.  Uma missão transformadora e com acontecimentos quase sempre previsíveis, no alto dos meus 28 anos. Eu não estava disposta a fortalecer a ideia de que uma pessoa estivesse ao meu lado e soubesse lidar tão bem quanto eu quando alguém na rua me olhasse com a expressão de quem viu um extraterrestre, ou compreender a linha tênue entre a graça de uma piada íntima e uma brincadeira ofensiva. Alguém que fosse capaz de ir além de tocar seu corpo e lhe auxiliasse a transformar feridas invisíveis em pura beleza.

Associado a isso, havia um processo necessário de aprender a gostar da própria companhia e se sentir bem comigo mesma, vivendo aquele momento onde você começa a perceber que a maioria dos encontros não vale a pena. E chega aquela fase em que você descobre que um banho quentinho e um bom livro são melhores do que a maioria dos encontros.

Essa etapa foi fundamental para fortalecer o desejo de ser humana, de não desejar ser o modelo de superação para ninguém além de mim mesma. Passei a perceber que desta forma desejava me fazer atraente e possível de ser alcançada, de ser amada de uma maneira singela e não endeusada.

Acredito que uma das coisas mais importantes que aprendo na prática com meu noivo é que amar não é um sentimento, mas uma escolha, um ato de vontade. Todos os dias ele é capaz de me surpreender com um exemplo diferente sobre essa lição.

Viver um relacionamento após esse compromisso pessoal com seu autoconhecimento lhe dá bases para compreender que falar não significa apenas conversar por alguns minutos antes de adormecer. Significa respeitar as falas de dores, o passado, dividir sonhos, é fazer planos sobre o futuro e entender a linguagem de amor do seu parceiro.

Quando nos esforçamos para mutuamente nos tornarmos as melhores pessoas possíveis, criamos no relacionamento um ambiente que nos inspira a querermos ir mais longe. É neste espaço que nos encorajamos quando desanimamos, nos reconfortamos quando falhamos e nos alegramos profundamente quando temos sucesso.

Meu noivo não possui deficiência física ou mobilidade reduzida e certamente ele olhou para essa mulher desfilando com essa cadeira de rodas, toda metida a independente, usando uns looks descolados, uma verdadeira pilota de fuga, cheia de atitude, e desde então começou a arquitetar uma forma de me pedir em casamento que fosse irrecusável.

E seria possível dizer outra coisa além de “sim” quando ele faz a proposta de dividir essa loucura inesquecível que é a vida durante um voo de helicóptero na cidade de São Paulo?

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Descrição da imagem para cego ver: Amanda e seu noivo estão sentados de frente um para o outro, em uma sala, ao fundo da imagem.  A fotografia está focada na caixa de alianças dos noivos.

7 comentários em “Noivado nas nuvens

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