Quatro rodas, duas mãos e uma cozinha acessível

Por conhecimento de causa eu posso afirmar que há uma grande chance de que crianças criadas na casa da avó sejam cercadas de mimos e com todas as vontades feitas. Se for uma criança com deficiência e/ou mobilidade reduzida, o desejo de proteção pode ser potencializado, de forma que o seu entorno esteja repleto de facilidades para “compensar” as possíveis barreiras e desafios que ela encontrará.
À medida que elas se desenvolvem, a criação de um ambiente de atenção e amor para crianças com necessidades especiais é fundamental para o fortalecimento da sua confiança. O grande desafio é equilibrar o ambiente de proteção com um espaço propício ao autodesenvolvimento e à atribuição de responsabilidades de acordo com suas restrições.
Vocês devem imaginar como eu estava quando saí da casa dos meus avôs, aos 18 anos. No quesito cozinha, mais “estragada”, impossível. Minha atuação exclusiva era de consumidora. Ou seja, fritar ovos já seria um banquete.
E, durante a mudança radical que eu passei ao entrar na Universidade, aprender a cuidar mais de mim e das minhas coisas figurava no topo da lista de aprendizados. Não dá para dizer que virei uma expert na cozinha, mas muita coisa melhorou ao longo dos anos até eu ir morar sozinha. Ao virar dona de casa, de fato e de direito, precisei criar estratégias para vencer os principais obstáculos em uma cozinha.
Em primeiro lugar, o fogão. Eu e ele demoramos um pouco para nos darmos bem. Minha sorte foi que no meu chá de casa nova, eu ganhei um super presente chamado “panela elétrica de arroz”. E se engana quem acha que ela serve apenas para fazer arroz comum. Nela, já fizemos macarrão, arroz à piamontese, vários outros tipos de arroz, carne moída com tomates, milho cremoso, bolo, cuscuz, estrogonofe de frango, e até pudim, brigadeiro e cobertura para bolo.
Na minha primeira casa alugada para morar sozinha, já havia “cooktop” numa bancada de altura adequada para mim. Essa é uma excelente opção e é fácil encontrar modelos de diversos preços. Ele deve ser baixo o suficiente para que a pessoa consiga ver por cima das panelas. Deste modo, no final das contas, a altura ideal será de acordo com a necessidade de cada um, permitindo a própria independência. Já o forno pode ser comprado separadamente e colocado também sobre uma bancada.
Um grande desafio ao se adaptar uma cozinha é como dispor os armários. Visto que o ideal é não ter armário embaixo de qualquer local, eles devem ser montados sobre a bancada e não podem ser muito altos. Outra solução é deixar um vão para entrar os pés, de modo que a pessoa seja capaz de explorar o alcance máximo dos braços em cima da bancada, e colocar os armários entre esse vão. Assim, é possível acessar a parte de baixo e a parte de cima.
A projeção da pia segue a mesma lógica dos armários: o ideal é que a parte de baixo esteja livre para que a cadeira possa entrar. Segundo a NBR 9050, a pia deve ter altura entre 73 e 85 centímetros, mas, repito a dica que apresentei acima: a altura ideal será de acordo com a necessidade de cada um. Essa bancada deve ter a altura certa para que a pessoa desempenhe todas as atividades necessárias na cozinha.

E, por último, mas não menos importante: tenha sempre por perto acessórios para proteção contra o calor e objetos quentes. Muitas pessoas com deficiência não têm sensibilidade à variação de temperatura, portanto, é fundamental se proteger para evitar acidentes.

Bom apetite!

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Descrição da imagem para cego ver: Amanda está usando um avental e segurando uma panela elétrica, enquanto sorri para a câmera.

6 comentários em “Quatro rodas, duas mãos e uma cozinha acessível

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