8 de março: desconstruindo a invisibilidade da mulher com deficiência

Conheço muitas pessoas que acham o termo “invisibilidade” muito radical para caracterizar a presença da mulher com deficiência na sociedade. Alguns argumentam exemplificando as conquistas pessoais e profissionais da minha vida e o respeito que existe nas minhas relações. Acontece que, infelizmente, a minha realidade ainda é uma exceção dentro dos espaços nos quais estou inserida. Ainda estão vivas todas as memórias de dor, de incerteza, insegurança e desafios que caracterizaram os caminhos percorridos até o dia de hoje. E eu cuido para que elas permaneçam assim, cheias de vida, para que eu não caia na falsa sensação de que está tudo bem, enquanto milhares de outras mulheres com deficiência têm as suas vozes caladas.

Há alguns anos eu conheci uma mãe de uma criança que possuía a mesma patologia que eu, e que ficou muito emocionada ao me ver indo em direção ao meu carro, após assistir a um show. Segundo ela, os médicos haviam dito que a sua criança teria apenas algumas semanas de vida. Para aquela mulher, que não parava de chorar, ver-me ali era um milagre. Afinal fora exatamente a mesma coisa que foi dita para minha família.

Aquela jovem, de origem humilde, uma mãe disposta a fazer todo o possível (e impossível) apresentava, naquele momento, muita força para lutar. Obviamente, nos tornamos amigas. Foram 4 anos de trocas, amizade e respeito. Até que, em uma manhã de domingo, eu recebi a triste notícia de que aquele pequeno Ser pelo qual eu havia nutrido tanto carinho, após uma gripe, complicações e dificuldade de conseguir um hospital para atendimento, faleceu aos seis anos de idade. E eu, fiquei ali, imóvel, com aquela sensação de que aquela também era a minha história. Talvez a minha história contada de outra forma, em uma versão com menos oportunidades.

Foi naquele momento que eu me dei conta de que cada vez que eu falasse, não estaria falando apenas por mim, mas por todos e todas aqueles (as) que tiveram a sua voz interrompida. Que cada espaço que eu ocupasse, seria ocupado por mim e por todas aquelas que não tiveram as mesmas chances que eu. Que cada vez que eu pensasse no meu futuro, eu pensaria em contribuir para que cada espaço que eu passasse estivesse mais preparado, mais humano e equânime, para que outras pessoas o ocupassem e exercessem o seu direito de serem quem são, quem desejam ser, como são. Que eu deveria falar, ainda que a minha voz tremesse.

Para contribuir com a eliminação da invisibilidade da mulher com deficiência é necessário compreender e transformar a percepção que algumas pessoas têm de que é “fofo” e “carinhoso” falar com você sempre no diminutivo (bonitinha, fofinha, gracinha, que roupinha mais lindinha de bebê). É estar preparado para não admitir que as suas relações orbitem entre a infantilização e a marginalização. É preciso se preparar para superar as expectativas, sobretudo aquelas que mensuram a sua capacidade de acordo com pré-conceitos. É enfrentar, mas também é compreender o tempo daqueles que ainda não se abriram para a diversidade do mundo.

Talvez o meu tamanho de um metro seja a forma mais impactante do outro perceber a urgência de enxergar além dos olhos. E, para isso, você precisa estar pronta. Pronta para lidar com certa crueldade, pronta para lidar com a ignorância. Mas, também pronta para desfrutar de todos os frutos maravilhosos que só o trabalho constante traz. Pronta para viver o amor de alguém que lhe vê completa, inteira e mulher.

“Quando uma mulher se movimenta, toda a sociedade avança”…

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Descrição da imagem para cego ver: Amanda está sorrindo, sentada em sua cadeira de rodas, usando uma saia preta e blusa florida. Ao fundo, o palco do Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, 6ª Edição

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