Afinal, o que é deficiência?

Pode até soar como repetitivo afirmar que a pessoa com deficiência é uma pessoa como outra qualquer, que tem suas qualidades e defeitos, e tem a deficiência como mais uma característica. Mas, a realidade é que ainda estamos distantes de uma convivência onde essa percepção esteja realmente internalizada por algumas pessoas.

Muitos indivíduos ainda carregam uma tendência a enxergar o mundo de uma maneira maniqueísta, encaixando as pessoas em personagens de vilão ou mocinho, dentro das suas crenças. Não fazem diferente quando se deparam com alguma pessoa com deficiência: se a pessoa com deficiência aceita educadamente os elogios sobre o quanto ela é “guerreira”, ela passa a ser venerada como uma pessoa santa. Mas, se ela rejeita algum tratamento que a infantilize ou que a sua deficiência seja tratada como uma peça de curiosidade ou “entretenimento” do outro, ela se reduz a alguém inconformado, frustrado ou “problemático”.

Entender o ser humano dentro de toda a sua complexidade exige de nós um pouco mais de empatia e abertura ao outro. Justamente por isso, quando estamos falando de pessoas com deficiência, é importante irmos além da compreensão do conceito de deficiência, incluindo o porquê a gente não pode mais usar certos termos e que o uso da terminologia mais correta não é uma mera questão de politicamente correto.

O conceito de deficiência que usamos hoje foi trazido pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência aprovado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Essa convenção foi ratificada aqui no Brasil como Norma Constitucional, o que significa que ela tem o mesmo valor jurídico da nossa Constituição.

A Convenção definiu que “pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”. Isso significa, principalmente, que a deficiência não é uma doença e sim uma característica e que a dificuldade ou a limitação de participação existe por causa das barreiras ou a falta de acessibilidade ou recursos no meio em que vivemos.

Nós já falamos sobre a terminologia correta no post “Fornecedores: eles estão preparados para atender clientes com deficiência?” Mas, é sempre importante reforçar. Então, o termo correto é pessoa com deficiência. Nada mais de portador, pessoa especial, deficiente, necessidades especiais ou outro. Agora, quando você quiser falar de tipos específicos de deficiência, você pode usar: pessoa cega, pessoa com deficiência visual, pessoa surda ou pessoa com deficiência auditiva, pessoa com nanismo, pessoa com deficiência física ou pessoa com deficiência mental, por exemplo. Você ainda pode utilizar o termo profissional com deficiência ou colaborador com deficiência. O importante é lembrar que a pessoa sempre deve preceder a deficiência, que não passa de uma característica. O uso da terminologia correta não é um preciosismo ou uma chatice, mas uma forma de você evoluir junto com o conceito de deficiência. Então, quando você expressa verbalmente a terminologia, o conceito fica mais claro para qualquer pessoa.

Notamos que enquanto o termo “incapacidade” diz respeito às atividades que a pessoa se restringe de fazer por causa da deficiência, o termo “desvantagem” é fruto da deficiência e das incapacidades que limitam a pessoa de exercer tarefas que são socialmente esperadas que ela realize. Eu, por exemplo, tenho uma deficiência física, a minha incapacidade é andar e a minha desvantagem é não conseguir me locomover sem o uso de cadeira de rodas.

Agora que estamos mais familiarizados com os conceitos e terminologia, ficamos mais abertos para perceber que todos nós, de algum modo, temos as nossas deficiências e eficiências. Nossas crenças, nossas vivências, nossa forma de interpretar os fatos são os influenciadores da nossa percepção da realidade, logo podemos decidir de que forma queremos enxergar as pessoas: pelas suas deficiências ou pelas suas potencialidades.

Isso não significa que deve ser deixado de lado o que precisamos desenvolver, mas sim que ninguém é bom em tudo: depende da forma como interpretamos os acontecimentos e do olhar que direcionamos para o fato.

Então, afinal, o que é deficiência?

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