Pessoas com deficiência e o mito da motivação

Se tem uma coisa que as pessoas com deficiência ouvem com frequência é o pedido para que compartilhem as suas histórias de superação. Muitas vezes, tal pedido vem acompanhado da justificativa que o ouvinte está em busca de uma “injeção” de motivação, de ouvir palavras que alterem seu ânimo sobre sua vida e seus projetos.

Mas, será que os fatores externos têm o poder de motivar as nossas ações?

Segundo Gooch e McDowell, “a motivação é uma força que se encontra no interior de cada pessoa” e nenhuma “pessoa pode jamais motivar outra”. Assim, a motivação, ou o que motiva a ação, são fatores intrínsecos que o levam à busca do fator de satisfação que o irá atender. Ou seja, motivação é uma palavra que vem do latim “movere” (motor) e diz respeito à energia que alguém despende para atingir aspirações, desejos, desafios e necessidades individuais. Portanto, a motivação é interna e pode-se afirmar que ninguém possui a capacidade de motivar outra pessoa, mas apenas exercer influência positiva (inspirando e incentivando) ou negativa (coerção e ameaças diversas).

Entretanto, não é justo reduzir as pessoas com deficiência a objetos de inspiração, ignorando que elas são seres complexos, com suas qualidades e defeitos, conquistas e fracassos e que, no final das contas, existem “pessoas” antes da deficiência. Ou seja, nós somos pessoas reais, e não estamos aqui para inspirar. Ainda assim, frequentemente as pessoas olham para mim, sentada em minha cadeira de rodas, e simplesmente espera que eu os inspire. E se eu lhes digo que não estou aqui para atender a esse desejo, a reação mais comum é de espanto.

Isso porque a crença em torno de nós é que viver com uma deficiência é algo extremamente sofredor e naturalmente ruim e que isso faz das pessoas com deficiência seres excepcionais.

Segundo a palestrante Stella Young, é assim que nasce o que podemos chamar de “pornografia inspiradora”. Digo isso porque é um movimento que “coisifica” um grupo de pessoas em benefício de um outro grupo de pessoas. Neste caso, estamos a coisificar as pessoas com deficiência para gerar bem-estar às pessoas sem deficiência. É uma forma de alimentar o pensamento que “por mais que a minha vida esteja ruim, a vida de alguém é pior”. Isso não significa que pessoas com deficiência não podem inspirar outras, mas que precisamos migrar da perspectiva de que o corpo e diagnóstico do outro é uma “atração” para que eu me sinta melhor para uma perspectiva de incentivo através da sua força e da sua resistência.

E como eu espero contribuir para que esse cenário mude? Desenvolvendo ações para um mundo em que as expectativas sobre as pessoas com deficiência não sejam tão baixas que o simples fato de conseguirem sair de casa transformem elas em pessoas inspiradoras. Quero um mundo em que as pessoas com deficiência inspirem outras por suas reais conquistas, pelo impacto positivo dos seus trabalhos , independente das suas condições físicas e dos seus diagnósticos.

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